quinta-feira, 7 de junho de 2018

Sion Sono - Tarantino Nipônico


Poucos diretores foram tão felizes em expressar suas ideias como Sion Sono. O diretor de cinema japonês que tem um número significativo de produções “começou” sua carreira com o filme “Suicide Club” em 2001. O filme narra a história de garotas colegiais que provocaram um suicídio em massa numa estação de metrô em Tokyo. Mas foi apenas com 愛のむきだし” (Love Exposure) que a carreira de Sion Sono atingiu outra escala. O longa é capaz de criar todas as emoções no telespectador durante suas impressionantes quatro horas de duração. Mas apesar da sua extensão, nenhum bocejo de tédio foi dado, assim como o relógio não foi consultado em nenhum momento com a intenção de ver quantos minutos faltavam. Como o próprio título do filme sugere, o tema principal discutido é o amor, mas outros ingredientes são adicionados durante o longa, como religião, questões de gênero e amizade.
Apesar da criatividade do filme e da exposição bem sucedida de Sion Sono com Love Exposure, foram duas outras obras que prenderam a minha atenção – ”恋の罪” (Guilty of Romance) e ”アンチポルノ” (Antiporno). Ambas têm em comum a discussão do papel da mulher na sociedade japonesa e na minha avaliação, Sion Sono consegue abordar esses assuntos de uma forma particularmente profunda. Antiporno, um filme que difere totalmente de Love Exposure na questão do tempo – tem apenas 1:15:00 de duração – narra a história da jovem Kyoko (Ami Tomite) que a partir da perda de sua irmã passa a questionar sua própria existência feminina. A maioria das cenas são gravadas num quarto exótico, que na minha leitura, simboliza a mente da protagonista, pelo fato da jovem não sair nenhum momento do quarto, mas apenas receber visitas inesperadas. Inicialmente, as pessoas que entram no quarto demonstram atitudes de cortesia e respeito para com a Kyoko. Sua secretária particular assim como uma repórter acompanhada de uma fotógrafa apenas escutam as falas e questões que conduzem a protagonista na sua jornada existencial. Não apenas respeitam sua posição de poder, como também são subjugadas em alguns momentos – a secretária é obrigada a se despir e andar de quatro pelo quarto a mando de sua chefe.
Contudo, numa cena inusitada os papeis das personagens são interrompidos e descobrimos que estamos diante de uma gravação de um filme dentro do filme – havia uma equipe composta apenas de homens filmando no local e o quarto era apenas um cenário de uma história qualquer. Os papeis são imediatamente trocados e para nossa surpresa descobrimos que a linda e poderosa Kyoko é na realidade uma frágil e indefesa criança. Não apenas sua secretária questiona sua performance, como também critica o diretor de ter fornecido o papel mais importante do filme para a funcionária mais fraca. O diretor e sua equipe também ficam insatisfeitos com o trabalho da atriz e fazem piadas de sua atuação. Essa mudança brusca de papeis sugere a situação de fragilidade que as mulheres ocupam na sociedade no momento. De fato, muitas conquistas foram feitas, e a posição da mulher na sociedade é muito melhor comparado ao passado, mas esse local ainda não está totalmente assegurado, como essa cena descreve.
Guilty of Romance é mais sutil nas críticas a sociedade japonesa e às questões que permeiam a realidade feminina do país. A história narra a jornada de Izumi (Megumi Kagurazaka), uma dona de casa dedicada totalmente às tarefas domésticas. O rigor é absoluto com a limpeza e a organização do espaço, mas quem a submete a esse trabalho penoso é seu marido Kanji (Yukio Kikuchi). Essa realidade fica evidente quando Izumi está aguardando seu marido chegar e posiciona simetricamente suas pantufas na porta de entrada. Além disso, quando Izumi erra o sabonete de Kanji, este critica sua distração e ainda a obriga a repetir o nome do sabonete correto que deve ser comprado.
Porém, Izumi, infeliz com sua condição de dona de casa e com 30 anos de idade, decide se aventurar na vida, informando ao marido que achou um emprego como funcionária de supermercado. O trabalho consistia em oferecer salsinhas para os clientes, mas ninguém demonstrava interesse, com exceção de uma mulher, que ficou interessada na verdade na beleza de Izumi. Ela a convidou para tirar algumas fotos na sua agência de modelos, e a partir desse momento a saga em busca da existência feminina de Izumi começa. Do trabalho do supermercado, para a modelagem e finalmente, para a prostituição. Mas o ingresso nesse universo é feito através de uma professora de faculdade Mitsuko (Makoto Togashi), que durante a noite trabalha como prostituta nas obscuras e pequenas ruas de Tokyo.
Uma cena é interessante para destacar nesse filme sobre a busca da identidade feminina e diz respeito ao trabalho da prostituição realizada por Izumi. Quando a professor da faculdade se recolhe no seu quarto para atender dois clientes, Izumi decide entrar para assistir a performance de sua mentora. A professora Mitsuko manda sua aluna participar do coito coletivo com breve resistência de Izumi, mas cedendo no final. Depois de terminada a diversão, os clientes pagam pelo serviço, mas o dinheiro dado é insuficiente, o que deixa Mitsuko furiosa. Se inicia uma discussão com o cliente e após Mitsuko ameaçar esfaquear seu cliente este decide pagar o valor correto. Izumi pega o dinheiro que seu cliente deixou no chão e Mitsuko diz para ela valorizar o dinheiro que recebeu, porque trata-se de um trabalho. Nessa cena, Sion Sono está nos dizendo que o trabalho que é realizado deve ser valorizado por quem faz, mesmo que seja direcionado para a sobrevivência e a diversão masculina. Ironicamente, esse trabalho é considerado repugnante por parte dos homens, como é revelado nas primeiras tentativas de Izumi no ramo da prostituição. Mas ela logo percebe como se organizam as regras do jogo e demonstra extrema facilidade para se inserir nesse universo.
Sion Sono é um diretor e escritor extremamente versátil, suas obras mesclam dramas, comédias, terror e suspense. A violência e a sexualidade estão fortemente presentes na maioria dos filmes, e frente ao cenário de cinema japonês esse diretor me surpreendeu em todos os sentidos.

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