Poucos diretores foram
tão felizes em expressar suas ideias como Sion Sono. O diretor de cinema
japonês que tem um número significativo de produções “começou” sua carreira com
o filme “Suicide Club” em 2001. O filme narra a história de garotas colegiais
que provocaram um suicídio em massa numa estação de metrô em Tokyo. Mas foi
apenas com “愛のむきだし” (Love Exposure) que a carreira de Sion Sono atingiu outra
escala. O longa é capaz de criar todas as emoções no telespectador durante suas
impressionantes quatro horas de duração. Mas apesar da sua extensão, nenhum
bocejo de tédio foi dado, assim como o relógio não foi consultado em nenhum
momento com a intenção de ver quantos minutos faltavam. Como o próprio título
do filme sugere, o tema principal discutido é o amor, mas outros ingredientes
são adicionados durante o longa, como religião, questões de gênero e amizade.
Apesar da criatividade do filme e da exposição bem sucedida de Sion Sono
com Love
Exposure, foram duas
outras obras que prenderam a minha atenção – ”恋の罪” (Guilty of Romance) e
”アンチポルノ” (Antiporno). Ambas têm em comum a discussão do
papel da mulher na sociedade japonesa e na minha avaliação, Sion Sono consegue
abordar esses assuntos de uma forma particularmente profunda. Antiporno, um
filme que difere totalmente de Love Exposure na questão do tempo – tem apenas
1:15:00 de duração – narra a história da jovem Kyoko (Ami Tomite) que a partir
da perda de sua irmã passa a questionar sua própria existência feminina. A
maioria das cenas são gravadas num quarto exótico, que na minha leitura, simboliza
a mente da protagonista, pelo fato da jovem não sair nenhum momento do quarto,
mas apenas receber visitas inesperadas. Inicialmente, as pessoas que entram no
quarto demonstram atitudes de cortesia e respeito para com a Kyoko. Sua
secretária particular assim como uma repórter acompanhada de uma fotógrafa apenas
escutam as falas e questões que conduzem a protagonista na sua jornada
existencial. Não apenas respeitam sua posição de poder, como também são
subjugadas em alguns momentos – a secretária é obrigada a se despir e andar de
quatro pelo quarto a mando de sua chefe.
Contudo, numa cena inusitada os papeis das personagens são interrompidos e
descobrimos que estamos diante de uma gravação de um filme dentro do filme –
havia uma equipe composta apenas de homens filmando no local e o quarto era
apenas um cenário de uma história qualquer. Os papeis são imediatamente
trocados e para nossa surpresa descobrimos que a linda e poderosa Kyoko é na
realidade uma frágil e indefesa criança. Não apenas sua secretária questiona
sua performance, como também critica o diretor de ter fornecido o papel mais
importante do filme para a funcionária mais fraca. O diretor e sua equipe
também ficam insatisfeitos com o trabalho da atriz e fazem piadas de sua
atuação. Essa mudança brusca de papeis sugere a situação de fragilidade que as
mulheres ocupam na sociedade no momento. De fato, muitas conquistas foram
feitas, e a posição da mulher na sociedade é muito melhor comparado ao passado,
mas esse local ainda não está totalmente assegurado, como essa cena descreve.
Guilty of Romance é mais sutil nas críticas a sociedade japonesa e às
questões que permeiam a realidade feminina do país. A história narra a jornada
de Izumi (Megumi Kagurazaka), uma dona de casa dedicada totalmente às tarefas
domésticas. O rigor é absoluto com a limpeza e a organização do espaço, mas
quem a submete a esse trabalho penoso é seu marido Kanji (Yukio Kikuchi). Essa
realidade fica evidente quando Izumi está aguardando seu marido chegar e posiciona
simetricamente suas pantufas na porta de entrada. Além disso, quando Izumi erra
o sabonete de Kanji, este critica sua distração e ainda a obriga a repetir o
nome do sabonete correto que deve ser comprado.
Porém, Izumi, infeliz com sua condição de dona de casa e com 30 anos de
idade, decide se aventurar na vida, informando ao marido que achou um emprego
como funcionária de supermercado. O trabalho consistia em oferecer salsinhas
para os clientes, mas ninguém demonstrava interesse, com exceção de uma mulher,
que ficou interessada na verdade na beleza de Izumi. Ela a convidou para tirar
algumas fotos na sua agência de modelos, e a partir desse momento a saga em
busca da existência feminina de Izumi começa. Do trabalho do supermercado, para
a modelagem e finalmente, para a prostituição. Mas o ingresso nesse universo é
feito através de uma professora de faculdade Mitsuko (Makoto Togashi), que
durante a noite trabalha como prostituta nas obscuras e pequenas ruas de Tokyo.
Uma cena é interessante para destacar nesse filme sobre a busca da
identidade feminina e diz respeito ao trabalho da prostituição realizada por
Izumi. Quando a professor da faculdade se recolhe no seu quarto para atender
dois clientes, Izumi decide entrar para assistir a performance de sua mentora.
A professora Mitsuko manda sua aluna participar do coito coletivo com breve
resistência de Izumi, mas cedendo no final. Depois de terminada a diversão, os
clientes pagam pelo serviço, mas o dinheiro dado é insuficiente, o que deixa
Mitsuko furiosa. Se inicia uma discussão com o cliente e após Mitsuko ameaçar esfaquear
seu cliente este decide pagar o valor correto. Izumi pega o dinheiro que seu
cliente deixou no chão e Mitsuko diz para ela valorizar o dinheiro que recebeu,
porque trata-se de um trabalho. Nessa cena, Sion Sono está nos dizendo que o
trabalho que é realizado deve ser valorizado por quem faz, mesmo que seja
direcionado para a sobrevivência e a diversão masculina. Ironicamente, esse
trabalho é considerado repugnante por parte dos homens, como é revelado nas
primeiras tentativas de Izumi no ramo da prostituição. Mas ela logo percebe
como se organizam as regras do jogo e demonstra extrema facilidade para se
inserir nesse universo.
Sion Sono é um diretor e escritor extremamente versátil, suas obras mesclam
dramas, comédias, terror e suspense. A violência e a sexualidade estão
fortemente presentes na maioria dos filmes, e frente ao cenário de cinema
japonês esse diretor me surpreendeu em todos os sentidos.

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