As pessoas
desejam apenas a liberdade, liberdade para agir à sua maneira, pensar do seu
modo e fazer suas decisões. Uma lição valiosa que tirei durante meus estudos de
sociologia é que decisões totalmente autônomas e emancipadas são impossíveis de
serem feitas; algum fio do tecido social está permeando essa decisão, para usar
as palavras de algum sociólogo perdido nos anais da produção intelectual. A
condição de liberdade absoluta inexiste, nesse caso? Física e espiritualmente, não é possível sentir a liberdade e afirmar, categoricamente, que estamos vivenciando esse
estado e reproduzir por meio de palavras, imagens, sons, etc para as pessoas? O dinheiro pode ser uma ferramenta para legitimar a
liberdade, mas retornamos ao ponto inicial da discussão quando afirmamos
que o trabalho pode aprisionar o ser humano. Podemos contrapor esse
argumento sugerindo que o trabalho realizado com amor pleno ao ofício é a
condição de assegurar a liberdade. Mas nos tempos atuais, é possível de manter
o amor constantemente ao trabalho? Muitas questões se levantam nesse cenário.
No filme “レアル鬼ごっこ”, literalmente “Real pega-pega” a
condição da liberdade do ser humano é
constantemente apresentada, sobretudo na condição da mulher. As três histórias
narradas no filme discutem a condição da mulher na sociedade japonesa, e
pincipalmente, se estão satisfeitas com o papel que elas desempenham. Mitsuko,
uma estudante colegial, Keiko, uma noiva prestes a se casar, e Izumi, uma
corredora profissional, são as três histórias que compõe a narrativa do filme. Um
elemento cria um enredo interessante ao filme, pois as histórias, apesar de protagonizadas
por personagens com nomes diferentes, compõem a narrativa de uma única pessoa,
que ao longo do filme vai se transformando. Em outras palavras, o filme se
inicia com Mitsuko, passando para Keiko, atingindo Izumi, e retornando para
Mitsuko. Mas essa história é sobre uma única personagem.
Apesar do
pouco aprofundamento na composição psicológica das personagens, o ponto que
está em discussão é se a felicidade dessas mulheres é real com relação aos papéis
que elas estão ocupando na sociedade. Na minha avaliação, esses papéis carregam
fortes estereótipos e expectativas: as estudantes devem apresentar determinado
comportamento, tais como a ingenuidade e pureza do espírito. A noiva não deve
questionar sua decisão de se casar, e o uso do vestido assim como a felicidade
estampada no rosto são dois elementos fortes que devem estar presentes na
cerimônia.
Finalmente,
a corredora se apresenta como exceção a regra: não há uma imagem carregada de
significados nessa profissão. Corredores profissionais não tem o papel do
gênero fortemente marcados e diferenciado. O papel desempenhado por ambos os sexos é o
mesmo, ser o melhor e chegar na linha de chegada antes dos oponentes. Nesse
sentido que as primeiras lembranças da personagem são resgatadas: Izumi
lembra-se dos seus tempos de criança, quando ganhava de suas colegas nas
brincadeiras de corrida.
Depois de correr, Izumi chega a uma espécie de templo,
retornando a personagem inicial, Mitsuko. As paredes do templo são preenchidas
com figuras femininas, e no centro dele é possível avistar um senhor jogando videogame.
Para a revelação de Mitsuko, o senhor estava se divertindo com suas vidas: o
controle sobre as decisões e ações das três mulheres estava na mão de um homem.
Ao
presenciar essa cena, Mitsuko fica horrorizada com a fragilidade da condição
feminina, a para completar a diversão do senhor, ela deve se deitar com
um homem dando-lhe o prazer necessário para viver. Estranha situação, pois os
homens afirmam gozar da liberdade, mas na realidade, dependem de coisas tão
mundanas para preencher sua existência, como o gozo do sexo. Mitsuko lembra-se
de sua amiga Matsuko (são nomes diferentes!) quando afirma que estamos presos em determinada dimensão, e
presos, sobretudo, nas limitadas e repetidas decisões que tomamos na vida. A
única maneira de se libertar dessa prisão é a espontaneidade. Nesse momento que
o filme adquire a magia. A arte está presa também a determinadas inutilidades,
como a expectativa do público, a crítica dos intelectuais da televisão, aos
padrões estéticos do momento, a uma gama de correntes intelectuais do senso comum que impedem o voo da
espontaneidade do ser humano. Sion Sono é forte nessa mensagem, e ela é
direcionada principalmente a mulher, que está numa situação de aprisionamento a
determinados papéis, expectativas e comportamentos.

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