domingo, 10 de junho de 2018

Correndo a favor da liberdade - レアル鬼ごっこ



As pessoas desejam apenas a liberdade, liberdade para agir à sua maneira, pensar do seu modo e fazer suas decisões. Uma lição valiosa que tirei durante meus estudos de sociologia é que decisões totalmente autônomas e emancipadas são impossíveis de serem feitas; algum fio do tecido social está permeando essa decisão, para usar as palavras de algum sociólogo perdido nos anais da produção intelectual. A condição de liberdade absoluta inexiste, nesse caso? Física e espiritualmente, não é possível sentir a liberdade e afirmar, categoricamente, que estamos vivenciando esse estado e reproduzir por meio de palavras, imagens, sons, etc para as pessoas? O dinheiro pode ser uma ferramenta para legitimar a liberdade, mas retornamos ao ponto inicial da discussão quando afirmamos que o trabalho pode aprisionar o ser humano. Podemos contrapor esse argumento sugerindo que o trabalho realizado com amor pleno ao ofício é a condição de assegurar a liberdade. Mas nos tempos atuais, é possível de manter o amor constantemente ao trabalho? Muitas questões se levantam nesse cenário.
No filme “レアル鬼ごっこ, literalmente “Real pega-pega” a condição da liberdade  do ser humano é constantemente apresentada, sobretudo na condição da mulher. As três histórias narradas no filme discutem a condição da mulher na sociedade japonesa, e pincipalmente, se estão satisfeitas com o papel que elas desempenham. Mitsuko, uma estudante colegial, Keiko, uma noiva prestes a se casar, e Izumi, uma corredora profissional, são as três histórias que compõe a narrativa do filme. Um elemento cria um enredo interessante ao filme, pois as histórias, apesar de protagonizadas por personagens com nomes diferentes, compõem a narrativa de uma única pessoa, que ao longo do filme vai se transformando. Em outras palavras, o filme se inicia com Mitsuko, passando para Keiko, atingindo Izumi, e retornando para Mitsuko. Mas essa história é sobre uma única personagem.
Apesar do pouco aprofundamento na composição psicológica das personagens, o ponto que está em discussão é se a felicidade dessas mulheres é real com relação aos papéis que elas estão ocupando na sociedade. Na minha avaliação, esses papéis carregam fortes estereótipos e expectativas: as estudantes devem apresentar determinado comportamento, tais como a ingenuidade e pureza do espírito. A noiva não deve questionar sua decisão de se casar, e o uso do vestido assim como a felicidade estampada no rosto são dois elementos fortes que devem estar presentes na cerimônia.
Finalmente, a corredora se apresenta como exceção a regra: não há uma imagem carregada de significados nessa profissão. Corredores profissionais não tem o papel do gênero fortemente marcados e diferenciado. O papel desempenhado por ambos os sexos é o mesmo, ser o melhor e chegar na linha de chegada antes dos oponentes. Nesse sentido que as primeiras lembranças da personagem são resgatadas: Izumi lembra-se dos seus tempos de criança, quando ganhava de suas colegas nas brincadeiras de corrida. 
Depois de correr, Izumi chega a uma espécie de templo, retornando a personagem inicial, Mitsuko. As paredes do templo são preenchidas com figuras femininas, e no centro dele é possível avistar um senhor jogando videogame. Para a revelação de Mitsuko, o senhor estava se divertindo com suas vidas: o controle sobre as decisões e ações das três mulheres estava na mão de um homem.
Ao presenciar essa cena, Mitsuko fica horrorizada com a fragilidade da condição feminina, a para completar a diversão do senhor, ela deve se deitar com um homem dando-lhe o prazer necessário para viver. Estranha situação, pois os homens afirmam gozar da liberdade, mas na realidade, dependem de coisas tão mundanas para preencher sua existência, como o gozo do sexo. Mitsuko lembra-se de sua amiga Matsuko (são nomes diferentes!) quando afirma que estamos presos em determinada dimensão, e presos, sobretudo, nas limitadas e repetidas decisões que tomamos na vida. A única maneira de se libertar dessa prisão é a espontaneidade. Nesse momento que o filme adquire a magia. A arte está presa também a determinadas inutilidades, como a expectativa do público, a crítica dos intelectuais da televisão, aos padrões estéticos do momento, a uma gama de correntes intelectuais do senso comum que impedem o voo da espontaneidade do ser humano. Sion Sono é forte nessa mensagem, e ela é direcionada principalmente a mulher, que está numa situação de aprisionamento a determinados papéis, expectativas e comportamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário